hoje eu me despi da vida e assim fiquei:
curtindo a infância de um novo ano
que nasceu nu
na escuridão da noite
bem provável que amanhã ele esteja
– sabe-se lá por quê –
vestido numa fralda
brincando de transformar o tempo
talvez sentado aos pés de sua avó
– década passada –
ouvindo histórias de medos e coragens
saudades e esperanças
(algumas histórias se repetirão)
possivelmente eu quebre a cara outra vez
e não será culpa deste infante tempo
de apenas um dia
(algumas histórias se repetirão)
o ano-novo existe para que saibamos
– ao longo da vida –
recomeçar sonhos cicatrizados
(algumas histórias se repetirão)
quem sabe amanhã novos versos
recubram minha pele envelhecida
e façam de mim um poema inútil
(algumas histórias se repetirão)
mas hoje quero apenas ficar nu
numa taça de vinho
giuseppe caonetto
Nasci em 62.
Segundo contam
naquele domingo de 28 de janeiro
meu pai disparou pro alto
seu Taurus 38.
Há 62 anos
perfurou o ar
com tiros de alegria.
Minha vida começou –
bom que se diga –
em abril de 61.
Minha mãe a um mês
de fechar 44 voltas
em torno do Sol.
O tempo me torna
filho de uma incerteza humana
filho de uma certeza divina.
Eu sei que ao longo da vida
a alegria incontida de meu velho
foi minguando, minguando...
Como agora digo a ele
que transformei seu velho Taurus
num livro de sessenta e dois sonetos?
giuseppe caonetto
a contradição de todo poeta:
saber que a poesia é urgente
mas deixá-la adormecida
somente escrita quando desperta
dos sonhos em festa
a obsessão de cada poeta:
saber que a poesia é pra gente
batizada no fogo da lida
e a paixão grita ao ser descoberta
como luz numa fresta
a maldição de mim, poeta:
saber que a poesia é acidente
regente da minha vida
que se faz bendita no poema
– escrevê-lo é o que me resta
giuseppe caonetto
o que te faz amar?
a essa questão
mil respostas escritas
poetas já cantaram
em noites de Lua cheia
sem motivo algum
o lavrador joga no solo
a semente de feijão
e espera germinar
os pés sempre aguardam
um ao outro no caminho:
sabem que assim executam
a antiga arte de chegar
no final do filme
e as mãos me cultivam
um amor florido
como roteiro de uma cena
– ou um aceno
não preciso de respostas
preciso de tuas mãos
giuseppe caonetto
desde o momento
da primeira palavra
do primeiro verso
do primeiro poema
do primeiro livro
da primeira biblioteca…
não sei de onde vem
tanto amor
sei apenas que te amo
desde o instante
da primeira palavra
do primeiro verso
do primeiro poema…
giuseppe caonetto
Inscreva-se para receber as novidades.
(Os dados serão utilizados apenas para envio de conteúdos publicados neste site , nos termos da Lei nº 13.709/2018 (LGPD) e a inscrição poderá ser cancelada a qualquer momento.)
Este site utiliza cookies próprios e de terceiros para analisar sua navegação e oferecer um serviço mais personalizado e publicidade conforme seus interesses. Termos de Uso/Cookies | Política de Privacidade