A meu pai
nasci debaixo de um pé de café
– falava num sorriso irreverente –
lembranças de uma vida renitente
vivida em caatinga do muriaé
trouxe consigo a semente da fé
fincou-a no chão desta terra ardente
com mudas de bourbon e uma semente
de amor e de esperança em cada pé
sonhos plantados de imensas colheitas
sonhos podados em novas empreitas
vida liberta de toda a cobiça
quanto ao temor do que a vida lhe espreita
deu a seu filho a melhor das receitas
sim a seu modo ele amou a justiça
giuseppe caonetto
Paranavaí, cidade poesia, 11/04/2014
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dois de novembro e a saudade se manifesta
nas velas acesas flores e o mais que pomos
como se fossem as partes do que nós somos
ali deixadas ao pé da tumba funesta
depois fazemos nossa prece quase honesta
desprezamos a morte em versos que compomos
mas o destino de reis garis e mordomos
nos é comum e nos espreita – é o que nos resta
chegará o dia final em que nossos gomos
guardarão em paz os pares de cromossomos
e no esquecimento a nossa história indigesta
o tempo cuidará de apagar do que fomos
um a um dos versos enquanto decompomos
libertando o soneto da nossa alma em festa
giuseppe caonetto
Paranavaí, cidade poesia, 02/11/2023
Observando as raízes dum verso
descobri esta realidade insofismável:
poetas são seres com bosques por dentro.
Cada um tem o seu bosque.
Ali, pisando em sombras, o poeta se aprende.
E aprende a crescer, a conter
as árvores de folhas caídas.
No meio do bosque – todos poetas sabem –
há um pé de Poesia.
Infértil.
E o poeta resume sua vida
a visitar aquela árvore ressequida
numa andança de fora pra dentro
numa dança de dentro pra fora
como quem leva água para regar jardins
como quem traz seu pranto a fecundar o mundo.
giuseppe caonetto
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