Poemas


01
jan

ano-novo

hoje eu me despi da vida e assim fiquei:

curtindo a infância de um novo ano

que nasceu nu

na escuridão da noite

 

bem provável que amanhã ele esteja

– sabe-se lá por quê –

vestido numa fralda

brincando de transformar o tempo

 

talvez sentado aos pés de sua avó

– década passada –

ouvindo histórias de medos e coragens

saudades e esperanças

 

(algumas histórias se repetirão)

 

possivelmente eu quebre a cara outra vez

e não será culpa deste infante tempo

de apenas um dia

 

(algumas histórias se repetirão)

 

o ano-novo existe para que saibamos

– ao longo da vida –

recomeçar sonhos cicatrizados

 

(algumas histórias se repetirão)

 

quem sabe amanhã novos versos

recubram minha pele envelhecida

e façam de mim um poema inútil

 

(algumas histórias se repetirão)

 

mas hoje quero apenas ficar nu

numa taça de vinho

 

giuseppe caonetto

22
fev

Nasci em 62

Nasci em 62.

 

Segundo contam

naquele domingo de 28 de janeiro

meu pai disparou pro alto

seu Taurus 38.

 

Há 62 anos

perfurou o ar

com tiros de alegria.

 

Minha vida começou –

bom que se diga –

em abril de 61.

 

Minha mãe a um mês

de fechar 44 voltas

em torno do Sol.

 

O tempo me torna

filho de uma incerteza humana

filho de uma certeza divina.

 

Eu sei que ao longo da vida

a alegria incontida de meu velho

foi minguando, minguando...

 

Como agora digo a ele

que transformei seu velho Taurus

num livro de sessenta e dois sonetos?

 

giuseppe caonetto

09
dez

poetas

o que é a vida

senão um poema

inacabado?

 

os poetas todos

– desde os nascidos antes

do primeiro verso –

buscam pelo último

 

não fazem nada além

 

giuseppe caonetto

08
dez

sina

a contradição de todo poeta:

saber que a poesia é urgente

mas deixá-la adormecida

somente escrita quando desperta

dos sonhos em festa

 

a obsessão de cada poeta:

saber que a poesia é pra gente

batizada no fogo da lida

e a paixão grita ao ser descoberta

como luz numa fresta

 

a maldição de mim, poeta:

saber que a poesia é acidente

regente da minha vida

que se faz bendita no poema

– escrevê-lo é o que me resta

 

giuseppe caonetto

07
dez

mãos dadas

o que te faz amar?

a essa questão

mil respostas escritas

 

poetas já cantaram

em noites de Lua cheia

sem motivo algum

 

o lavrador joga no solo

a semente de feijão

e espera germinar

 

os pés sempre aguardam

um ao outro no caminho:

sabem que assim executam

a antiga arte de chegar

no final do filme

 

e as mãos me cultivam

um amor florido

como roteiro de uma cena

– ou um aceno

 

não preciso de respostas

preciso de tuas mãos

 

giuseppe caonetto

06
dez

declaração

desde o momento

da primeira palavra

do primeiro verso

do primeiro poema

do primeiro livro

da primeira biblioteca…

 

não sei de onde vem

tanto amor

 

sei apenas que te amo

desde o instante

da primeira palavra

do primeiro verso

do primeiro poema…

 

giuseppe caonetto


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