
no branco da folha
longo caminhar eu piso
de um primeiro risco
Fernanda Ribeirete
Acabei de ler o livro de estreia da poeta Fernanda Ribeirete. Na verdade, acabei de reler, agora em formato impresso, com aquele inescapável abrir de páginas próximo ao rosto para sentir o perfume de livro novo. As impressões a seguir não pretendem dissecar a obra ou preencher os espaços reservados a resenhas, mas são necessárias.
Lançado no dia 12 de abril no La Rauxa Café, em Curitiba, delicadamente editado pela Toma Aí Um Poema e composto por cinquenta e quatro poemas, o livro pega o leitor já na largada: o sumário, de forma inovadora, faz a demarcação das três partes do livro com três transbordantes tercetos que, pela fresta da Lua, fazem a conexão entre o tempo escasso e a infinitude do afeto.
O primeiro dos tercetos, com a métrica e a forma de um haicai, é um convite ao leitor para total imersão na Poesia, como quem mergulha na manhã chuvosa. O segundo, composto também no estilo de um haicai, propõe ousadamente ao leitor deixar-se seduzir pelos versos dos poemas, a ponto de comê-los. Por fim, a terceira parte é demarcada por um terceto que diz precisamente o que é o livro: a conjunção de tempo e espaço a sintetizar a vida.
O poema de abertura dá título à obra. Um novo roteiro para Joana é, como está escrito: um roteiro. Não qualquer, mas o que nos retira a órbita e nos restitui a capacidade da percepção, aquele sentimento de que tudo à nossa volta somos nós mesmos, diluídos.
A partir daí: cada página, um tremor.
Podemos conferir a maestria poética de Fernanda na leitura dos poemas que compõe a primeira parte. Neles, há uma suavidade nascida da delicadeza do sopro, como quem brinca com bolhas de sabão. A poeta se faz menina, mas não abdica sua voz de mulher, pois sabe que “se você soprar uma só palavra / faz-se o verbo acende a vida”.
Na segunda parte, os poemas são marcados por um amor incontido, provocante, daqueles inconfessáveis que não cabem nas páginas. Caberão nos olhos do leitor? Tendo a responder afirmativamente, pois tenho sob meu olhar versos de luz e calor, escritos em percursos de olhares, traduzidos em declarações com a forma da madrugada diluída em sonhos. É um amor que bate à porta e é acolhido, vivenciado, consumido: “minha aorta / de tanto amar / anda torta”.
Mas é na terceira parte do livro que o leitor é desafiado a mergulhar na Poesia como forma de redenção. Mesmo diante de tudo o que a vida pode oferecer, a poeta questiona: “o que temos agora? / meia forma de gelo / um fósforo molhado / a maquiagem escorregada”. São versos que propõem uma reflexão sobre o estado de alma vivenciado pelo eu poético, que observa a escassez de tudo quanto é útil e necessário à vida e à Poesia, mas mantém seu espírito conectado ao propósito último: “talvez a palavra de amor / plantada no querer desnudo / mantida a salvo no fim de tudo”.
na cadeira de balançar
sentou-se o tempo e se deteve
salpicando instantes
Fernanda Ribeirete
Certamente a Luiza, filha da autora, para quem o livro é dedicado, não titubeou em – numa fantasia que só a poesia pode oferecer – coletar pingos de chuva para sua pescaria, numa tarde ensolarada, num rio suspenso onde a vida se nutre de horizontes coloridos, sem pautas ou pausas, só reticências... e a poesia no riso frouxo.
Se na leitura dos quatro primeiros poemas o leitor sentir-se embriagado, é hora de um café, seguindo as instruções dos versos seguintes. Ah, claro, sem se esquecer de levar na concha das mãos o ínfimo, o mínimo, o necessário para a baldeação do tempo: a travessia está próxima. A leitura das instruções é imprescindível para quem deseja, um dia, dizer a si mesmo: li um poema, me fiz poeta no enquanto.
E pronto! Está o leitor preparado para aniquilar suas próprias portas, arcaicas e obsoletas, e jogar-se às prosas que a vida constrói.
Mas ir para onde? A poeta sugere que o lugar de nosso destino deve ser onde os sonhos não sejam desperdiçados, ou não saberíamos responder às próprias interpelações oníricas.
E como o tempo é implacável, um plantio de devaneios traria sentido – equilíbrio até – à rigidez dos ponteiros.
Ou quem sabe a sua definitiva explosão, com luzes coloridas e estreantes de uma bolha extinta no impacto da neblina. Está aí a leveza da vida, captada pela poeta nas esquinas em que as surpresas se apresentam como um desejo inefável.
Viver é um risco, já disseram filósofos e poetas. Ainda que acidentais, as adversidades presentes no ínfimo não podem inibir os poetas de capturarem o momento, o verso, a essência da vida.
É justamente o que faz a autora deste maravilhoso livro de poesia, ao trazer para a composição do poema vários mundos, habitados pela música, pelos perigos, pela fúria da palavra, combustível para o acendimento da vida.
Tenho diante dos olhos uma poesia que não cabe em si mesma, requer espaço para sinfonizar as nuances que somente o olhar poético do leitor poderá apreender, ainda que a escrita ziguezagueie pelos caminhos da página.
Não há como negar (sabem os poetas que não): alguns versos, mesmo poemas inteiros, por vezes nascem de forma inesperada. Não há lógica na poesia, sabemos. Vale – e os poetas se servem disso – a invenção. Escrever, em verdade, é tecer. E assim a poeta vai moldando uma vestimenta a cobrir o leitor que, já absorto pelas belezas que navegam nas páginas abertas, se vê rejuvenescido à espera das solares manhãs primaveris.
Munidos de novas vontades, seguem na leitura todos os olhos, moços, velhos, juvenis, retinas a amparar belezas que somente seu barco pode transportar e transbordar, onde os mundos se encontram – e encantam.
Ao longe, apenas os ecos de quem decidiu não embarcar, talvez por medo do outono que se apresenta. As batalhas requerem atitudes para, em outros espaços, germinarem pazes, ainda que os mares precisem também ser vencidos.
Os que subiram a bordo haverão de sacar da mochila a coragem da travessia, atitude dos forjados nos elos das estações, necessária ao enfrentamento do frio das ausências.
Não se pode dar brechas: as flores requerem cultivo, bem mais que olhares. O olhar não favorece a rosa, apenas captura sua imagem perfumada para o deleite do tempo, sentado numa cadeira de balanço.
A esta altura, o leitor que venceu a primeira trilha sem tropeçar em versos submersos já trocou o brilho dos olhos por risos indisfarçáveis, refrescantes, intermitentes e constantes, como deve ser a paz.
Hora de descansar os olhos? E perder a dança da poesia? Deixar em órbita palavras sedentas de leitura? Não, a poesia revelada no livro é instigante, incisiva, provocativa, cativante, daquelas que nos eleva, nos faz tocar o céu. É etérea e sensível, mora na gente, percorre a aorta do leitor, promove urgências, comparece, bate à porta.
O livro que tenho em mãos é uma declaração de amor. Não qualquer, mas daqueles que se rendem à Poesia, daqueles que estendem as mãos para que outras as alcancem.
Às vezes a percepção que temos, quando a Poesia nos encharca, é que a vida não requer todas as horas para que um dia valha a pena. Os poemas que meus olhos degustam contêm essa energia. São sinestésicos, sensíveis, sedutores, singulares, sublimes, saborosos, soberanos, serelepes.
Por vezes escritos à sombra, noutras sob a luz irradiante de um beijo, os versos que desfilam sob meu olhar são confissões em forma de gotículas da madrugada, daquelas que causam serenatas por descaminhos, percurso próprio das paixões sem geografia.
Que o leitor não se espante ao sentir a poesia espalhada nestas páginas como se quedas d’água lhe atingissem os olhos. Pode ser que o impacto poético lhe cause um dorido desconforto. A visão, contudo, será atingida por uma cristalina limpidez, como se o colírio recebido contivesse todas as tintas do mundo, capaz de restaurar qualquer caos, por mais vazio que seja.
Renovados, poderão os olhos retidos nas páginas do livro contemplar nova realidade, para além de escombros forjados a fagulhas, em que a poesia salta e liberta o poema nascituro. Poemas precisam de ar. Por isso lhe damos asas. Mas se precisam terra firme, forramos o chão com tecido aveludado, tingimos suas paredes e lhe damos estado de relíquia.
A percepção da poeta, neste aspecto, é refinadíssima. Basta-lhe um fio para acendimento do poema, basta-lhe uma chave – que se multiplica – para a abertura do poema, onde tem início todos os percursos.
Para quem viaja ao encontro do sol,
é sempre madrugada.
Helena Kolody
A Poesia é um percurso. A grandeza da Poesia – que insisto em grafar com inicial maiúscula – consiste num caminhar interno, nutrido pelas invenções de nós mesmos. Traduz-se numa insistência de dar passos. Às vezes, para o lado, como quem rodopia ao som de uma valsa. Por vezes, temos em nosso trajeto apenas o próprio ombro para chorar, como escreveu Kolody no poema “Eu comigo”.
A vida nos oferece inúmeras estradas, mas nem todas nos levam ao encontro do Sol. Seguimos resilientes, no entanto, como se esquecêssemos de nossos rastros e inícios, viajamos no tempo de nossos sonhos em busca de pedaços em fragmentos, qualquer punhado de deslumbramentos a nos dizer que existimos e amamos. Chamamos a isto: poema.
O mundo, sabemos, é interno. O externo é uma invenção poética, formada por resquícios de nós mesmos, quando insistimos na incessante busca de algum caminho. Por isso o retorno é inevitável, a sede nos constrange a voltar.
Eis a importância do livro que tenho diante dos olhos. Em suas páginas, a poeta Fernanda oferece mais que uma viagem: o leitor é convidado a ser, ele mesmo, a madrugada à espera da aurora.
Mas não deve o leitor se preocupar com o tempo. Nem o cronológico, nem o meteorológico, nem o lógico. Apenas ir, para onde suas pernas o levar. A Poesia certamente será a fiel companhia na contagiante brincadeira de farfalhar os instantes inquietantes da vida. O que faz valer a pena.
É possível – bem provável – que a poeta e o leitor se conversem em mais de um caminho, numa trilha talvez, ou encruzilhada dos versos escritos a poeira, destas que repousam nos mutantes pensamentos: uns trovejam, outros convidam a um piquenique.
Quem sabe, sob a sombra de uma árvore ou à beira de um riacho, suas palavras rebrotem e se joguem nas enxurradas do tempo, festejando o renascimento do Sol a iluminar ideias estendidas na grama.
E neste ponto, no epílogo de um caminho regado à mais delirante poesia, depois de ler o último verso, já não me resta mais nada. Fecho os olhos e choro.
giuseppe caonetto