Amauri Martineli: Da Cultura à Comunicação, Uma Visão Sobre Ética e Inovação no Jornalismo

  05/10/2025

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Amauri Martineli - acervo pessoal

Paranavaí, PR – Amauri Martineli, ator, jornalista e ex-presidente da Fundação Cultural de Paranavaí, reflete sobre sua trajetória profissional — que transita entre a gestão cultural e a comunicação — e como a experiência na área artística conformou sua abordagem ao jornalismo e à comunicação. Com quatro décadas de atuação no cenário cultural, Martineli enfatiza que a sensibilidade artística e a ética são indispensáveis para a prática do bom jornalismo. Em entrevista, ele compartilha sua visão sobre as transformações da linguagem na era digital, enfatiza a responsabilidade do comunicador e defende que a arte pode enriquecer a produção de narrativas jornalísticas.

 

A Influência da Cultura na Visão de Mundo

Martineli iniciou sua jornada cultural na adolescência, ao ingressar como estudante no Colégio Estadual de Paranavaí, em 1985. Naquele ano, teve sua primeira participação no Festival de Música e Poesia de Paranavaí (FEMUP), criado em 1966 pelos alunos da turma pioneira do Curso Clássico (antigo curso de ensino médio) e organizado pelos alunos do Estadual até 1986, ano em que foi criada a Fundação Cultural.

Essa experiência, somada a leituras como o livro "Comunicação Global, A Mágica da Influência", de Lair Ribeiro, e à facilidade inata para a escrita, consolidou sua compreensão quanto à relevância da comunicação, principalmente no meio artístico. "Saber se comunicar, principalmente no meio cultural, é essencial", explica, ressaltando que as atividades na Fundação Cultural o ajudou a refinar sua capacidade de transmitir ideias na área artística.

 

Da Fundação Cultural ao Jornalismo

Martineli trabalhou por quase 20 anos na Fundação Cultural de Paranavaí, e vê sua imersão na área artística como fundamental para moldar sua percepção e aprimorar sua habilidade comunicativa. “Trabalhar na Fundação me fez melhorar ainda mais a minha comunicação, porque eu precisava dialogar com o público artístico e com a comunidade”, afirma. Mas desde jovem já exercitava a escrita.  “Eu já tinha essa bagagem, com 15 anos já escrevia pequenas matérias para um jornal do bairro, datilografado”, revela — um exercício que o aproximou da escrita jornalística.

 

Jornalismo na Era das Redes Sociais

Sobre o impacto das redes sociais no jornalismo, Martineli observa uma transformação abrupta na linguagem e destaca que a necessidade de prender a atenção imediata do leitor resultou em textos mais curtos e diretos. “Hoje ninguém lê uma página inteira de matéria. Você tem que prender a atenção do leitor já no primeiro parágrafo”, observa. Contrariando uma visão pessimista, Martineli não vê isso como empobrecimento da linguagem jornalística. Ele reconhece que o novo formato impôs desafios, mas também abriu possibilidades criativas. “O jornalista vai ter que se reinventar”, afirma, tarefa que considera natural para as novas gerações, que já nasceram imersas na cultura digital. "Não há controle sobre isso. Então não adianta se preocupar com coisas que não se consegue controlar", pondera, rejeitando nostalgias.

 

Ética e Responsabilidade: Os Pilares do Comunicador

A ética, para ele, é o fundamento da profissão. Em um cenário de polarização e rápida disseminação de informações, Martineli é enfático ao apontar a responsabilidade do comunicador. O principal erro que os comunicadores cometem hoje, em sua visão, é justamente a falta de ética e profissionalismo. Ele critica a prática de transmitir opiniões pessoais como fatos, sem pesquisa prévia ou base científica, e o ato de não checar as informações antes de publicá-las. “O comunicador precisa, acima de tudo, ter ética. Não pode usar o espaço que tem para impor opiniões pessoais ou influenciar de forma irresponsável”, afirma. Martineli destaca também a importância da escolha de palavras para alcançar públicos diversos. “Você precisa saber como o público pensa e age, para usar a linguagem adequada. Isso é ainda mais importante em contextos culturais diversos”, explica, recomendando pesquisa para adaptar a linguagem.

 

A Força das Palavras e da Arte

Para Martineli, o contato com as artes é um grande diferencial para qualquer comunicador. Ele acredita que a literatura contribui para o enriquecimento do texto e da forma como o profissional se expressa. Como exemplo, ele cita o jornalista e escritor Nilson Monteiro, membro da Academia Paranaense de Letras, cujas matérias "vêm carregadas de uma certa poesia".

A literatura e as artes, segundo ele, têm papel central na formação de comunicadores acolhedores, empáticos e criativos. “A literatura enriquece o texto e torna a narrativa mais envolvente”, analisa. Martineli acredita que o contato com a arte molda o caráter e ajuda o profissional a encontrar uma voz autêntica. “Não é preciso ser artista, mas é essencial apreciar a arte. Ela desenvolve sensibilidade e diferencia o comunicador.”

Por ser enriquecedora, Martineli celebra a influência da literatura e das artes na comunicação por inspirar abordagens inovadoras para temas complexos: "A arte modifica a pessoa. Sem a arte a vida seria um erro", complementa, fazendo referência à célebre frase de Friedrich Nietzsche no livro “Crepúsculo dos Ídolos”.

 

Jornalismo Além da Superficialidade

Com uma carreira que une cultura, arte e comunicação, Martineli aponta a multidisciplinaridade como fator que pode elevar o jornalismo, promovendo narrativas mais empáticas e profundas em um mundo digital acelerado. Vivendo em um mundo dominado pelas redes e pela velocidade da informação, ele enxerga na arte uma forma de manter a profundidade e a sensibilidade. “A internet é terra de ninguém. Tem muita coisa ruim, mas também muita coisa boa. É preciso saber procurar”, sintetiza.

 

Conselho para Futuros Jornalistas

Para quem inicia na profissão, o conselho de Martineli é simples e direto: "Seja você, simplesmente você, nada mais do que isso". Ele recomenda não criar personagens ou imitar outros profissionais. Em vez disso, aconselha a ler, pesquisar e acompanhar o trabalho de bons jornalistas e escritores, não para copiá-los, mas para aprender a diferenciar o que é bom do que é ruim, segundo seus próprios critérios.

 

Giuseppe Caonetto


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