Sobre Affonso Romano de Sant’Anna

  04/03/2025

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Com mais de 40 livros publicados (poesia, ensaios e crônicas), neste 4 de março faleceu, no Rio de Janeiro, o escritor e poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, aos 87 anos. Foi casado com a premiadíssima escritora Marina Colasanti, falecida no dia 28 de janeiro deste ano.

 

Nascido em Belo Horizonte no ano de 1937, Affonso Romano de Sant’Anna foi poeta, cronista e ensaísta conhecido principalmente pela crítica social contida em seus textos poéticos. Formado em Letras Neolatinas pela Universidade Federal de Minas Gerais, doutorou-se com tese sobre a obra de Carlos Drummond de Andrade e se tornou professor em universidades no Brasil e no exterior. Além de seus poemas com temática social e política, muitos dos quais publicados em revistas e jornais para engajamento do público, deixou como legado a popularização da leitura por meio do Programa de Promoção da Leitura (PROLER), criado no período que presidiu a Fundação Biblioteca Nacional (1990-1996).

 

Affonso Romano teve projeção nacional após o lançamento, em 1980, do livro Que país é este? e outros poemas, editado pela Civilização Brasileira, editora criada em 1932 que passou a integrar, a partir de 1996, o Grupo Editorial Record. Referida editora sempre teve, como linha editorial, a divulgação do pensamento progressista. Não haveria, por certo, editora mais propícia a publicar o livro, vez que integra o movimento da Poesia Social, gestado no contexto dos governos militares que assumiram o poder em 1964 por meio de movimento contrarrevolucionário.

 

Um dos poemas do livro tem como título: Uma geração vai, outra geração vem. Sei que o título não quer dizer isso, mas valho-me da licença poética também conferida ao leitor para afirmar que, nisto, o escritor acertou: há sempre uma nova geração, com novos pensamentos e novos valores a refundar a coisa velha. Eis o poema:

 

Uma geração vai, outra geração vem

 

Quando eu era menino

e meus pais e tios contavam da ditadura

que demorou 15 anos, partiu suas vidas em duas

entre censuras, polícias e torturas

eu os olhava como uma criança olha o desamparo de um adulto.

 

Hoje, minhas filhas me perguntam

sobre esses 15 anos de outra ditadura

que me sobreveio em plena juventude

e eu as olho como um adulto olha o desamparo da criança.

 

Tenho 40 anos. Escapei

de afogamentos e desastres antes e depois das festas,

e atravesso agora a zona negra do enfarte.

Em breve

      estarei sem cabelos e com mais rugas na face.

Quando vier de novo nova ditadura estarei velho

e com tédio frente ao espelho

contemplando o desamparo em que vou deixar meus netos.

 

O texto faz referência a três períodos ditatoriais, os dois primeiros com duração de quinze anos, cujo impacto foi sentido por gerações distintas, bem retratadas no poema.

 

Os quinze anos do primeiro período abrange os governos de Getúlio Vargas, de 1930 a 1945, ainda que a ditadura varguista tenha, de forma efetiva, iniciado com a instauração do Estado Novo, em 1937.

 

Quanto ao segundo período, devemos considerar que o poema, presumivelmente, foi composto em 1979, vez que integrou como poema-título o livro impresso e publicado no ano seguinte. Ou seja, a segunda parte do poema se refere aos quinze anos contados da contrarrevolução militar ocorrida em 1964 (que deu início aos governos militares, com duração até a eleição presidencial de Tancredo Neves, pelo Colégio Eleitoral, em 1985) até a data da composição poética.

 

Já o terceiro período ditatorial, profetizado nos últimos versos, refere-se a um tempo futuro, quando o poeta estará “velho” e “com tédio frente ao espelho”.

 

Quando o terceiro período ditatorial chegou, com a posse do ditador, ocorrida em 22 de março de 2017, o poeta-profeta estava velho, possivelmente com tédio e, talvez, diante do espelho, mas já sem forças para contemplar os estragos na vida, não apenas de seus, mas de todos os netos brasileiros.

 

De fato, os órgãos de imprensa, ao noticiarem o falecimento, informaram que o escritor sofria de Alzheimer desde 2017 e estava há quatro anos acamado, sendo esta a provável causa de seu óbito.

 

Ou seja, desde 2021, quando passou a valer no Brasil a Lei Alexandrina, o poeta travava sua própria luta, que culminou, após longos anos, em sua morte. A profecia foi cumprida, apenas em parte, e na pior parte. Espera-se, ao menos, que não dure quinze anos.

 

giuseppe caonetto


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