Uma pedra no meio do caminho

  27/11/2023

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Quando li pela primeira vez “No meio do caminho”, vi nos versos drummondianos uma profecia a se cumprir. Interpretação, claro, de um jovem recém-apresentado à Poesia. Com o tempo, mais de quarenta anos depois, retorno à leitura do famoso poema numa tentativa de melhor compreender a história brasileira e, principalmente, os acontecimentos do momento.

 

Escrito em 1924 e publicado pela primeira vez em julho de 1928, o poema integrou Alguma Poesia, livro de estreia de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), e se tornou o ponto de partida para uma revolução literária, um marco da poesia pós-modernista brasileira. Quando o escreveu, certamente Drummond sequer poderia imaginar que o poema, simples como a própria pedra, viesse a ocupar o espaço referencial que alcançou.

 

Antes de sua publicação, Mário de Andrade, em carta dirigida ao poeta mineiro em 1925, justificou a decisão de não enviar o poema aos diretores da Estética (revista lançada no Rio de janeiro com o objetivo de divulgar as ideias do movimento modernista) por “medo de que ninguém goste dele”, ainda que, noutra carta, tenha-o considerado formidável.

 

Após inúmeras reações adversas, inclusive chacotas, o poema tornou-se, em algumas décadas, o mais discutido do modernismo literário brasileiro, o mais parodiado e interpretado, tanto por intelectuais como por pessoas simples.

 

Em 1967, próximo do quadragésimo aniversário da publicação do poema, Drummond lançou o livro Uma pedra no meio do caminho – Biografia de um poema, reunindo a fortuna crítica de seu mais célebre poema, que ganhou nova edição em 2010, publicado pelo Instituto Moreira Salles, ampliada com textos, charges e ilustrações posteriores, a respeito do poema.

 

Como sabemos, Drummond era comunista, ainda que seus biógrafos insistam em apresentá-lo como um apartidário político. No entanto, há registros históricos de que fora lançado como candidato a deputado pelo partido comunista, em 1945, embora em seu diário tenha anotado a recusa do convite recebido. Sobre o tema, em 13 de março de 2013 o jornalista Marcelo Bortoloti publicou relevante artigo no blog do Instituto Moreira Salles. Segundo o jornalista, em 1945 o poeta começou a usar gírias de esquerda após ter encomendado, através de um amigo, o livro O capital, de Karl Marx[1].

 

Naquele conturbado momento da política nacional, já afastado do governo de Getúlio, onde ocupava a chefia de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação, Drummond fez uma visita ao líder comunista Luiz Carlos Prestes, na prisão, no dia 14 de março de 1945. Prestes, preso em 1936 por liderar a intentona comunista ocorrida em novembro de 1935, fez-lhe um convite para atuar como codiretor da Tribuna Popular, diário do partido, cargo que ocupou por poucos meses, afastando-se por discordar da orientação do jornal.

 

Embora Prestes e Drummond tivessem um pelo outro inegável admiração, isto não evitou que houvesse críticas mútuas após essa aproximação. Prestes, que esteve preso por nove anos, atribuiu a Drummond a pecha de servidor público burocrático, sem espírito militante. O poeta, por sua vez, atribuiu sua saída do jornal comunista à defesa de sua liberdade de dizer o que quer no momento que lhe apraz, e não quando outros querem ou determinam. Mas não é só isso. Bortoloti, em seu artigo, observa que a visita do poeta ao líder comunista preso o fez enxergar o terreno pantanoso da política, por ouvir de Prestes considerações sobre uma possível conciliação com o ditador Getúlio Vargas – que Drummond desejava combater[2] –, fato que se confirmou. Anistiado em 1945 por Vargas, Prestes o apoiou na eleição presidencial de 1950.

 

As informações acerca do posicionamento político do poeta não eram de meu conhecimento quando, pela primeira vez, repeti à exaustão que “no meio do caminho tinha uma pedra”.

 

Assim como a outros jovens aspirantes a poeta, aquele poema me pegou. Talvez influenciado pelas leituras bíblicas, a minha percepção (que cheguei a considerar pueril) era de um texto poético profético, já que no lugar da pedra poderia ser qualquer coisa. Seria a pedra o modernismo no caminho parnasiano? Faz sentido, se interpretarmos a pedra como fundamento dos novos conceitos a sepultar aqueles até então entranhados na poesia parnasiana. Há teóricos, no entanto, cuja interpretação é inversa, que afirmam ser o parnasianismo a pedra no meio do caminho, a impedir o avanço e desenvolvimento de uma arte inovadora, inaugurada pelo movimento modernista. O próprio poeta, em “Consideração do poema”, publicado no livro A Rosa do Povo (1945), diz não haver importância se no meio do caminho há uma pedra ou um rastro[3].

 

Na minha mente juvenil, no entanto, incomodava a existência de uma pedra a criar obstáculos pela simples razão de ser pedra.

 

Mas a vida é assim. Há certos obstáculos que se apresentam sem outra razão de ser: surgem apenas para serem obstáculos mesmo. Afinal, qual a finalidade do mal diante do bem, senão a de ser o obstáculo? Neste sentido, Santo Tomás de Aquino ensina que o mal não têm essência, não subsiste por si mesmo, posto que se define como a privação do bem, ou a ausência da essência do bem. Noutros termos, o mal não é ser, mas a privação do ser. Portanto, não tem propriamente natureza[4].

 

A metáfora utilizada por Drummond está muito além de ser apenas uma crítica ao parnasianismo. A leitura que faço do poema está na direção contrária dos críticos literários, cuja visão nebulosa não consegue enxergar além da própria pedra, um obstáculo para suas retinas fatigadas.

 

Seria ousadia afirmar que “No meio do caminho” é um dos mais políticos textos da poesia brasileira? Longe de significar tão somente a crítica ao antes ou a resiliência de quem não se atém diante do obstáculo, o poema drummondiano sugere a utilização da pedra como meio de luta, no sentido de se criar obstáculos aos propósitos, sejam quais forem.

 

No aspecto poético-literário-cultural, a pedra de Drummond pode ser entendida tanto como o movimento parnasiano, resistente às propostas inovadoras do movimento modernista, como o próprio movimento modernista, disposto a superar os valores considerados ultrapassados do parnasianismo e das escolas que o precederam. Aliás, a construção do poema a partir do título do soneto “Nel mezzo del camin...”, de Olavo Bilac, confirma esta última hipótese.

 

Na seara política, que envolve a vida de cada brasileiro, a observação de que a pedra que havia pode ser, na verdade, a pedra que ainda está no meio do caminho, resistente às inúmeras tentativas de remoção, não é uma hipótese desprezível, mas palpável.

 

Não é demais lembrar que no ano de 1924, quando o poema foi composto, no dia 28 de outubro teve origem a Coluna Prestes, originada pelos levantes tenentistas, sob a liderança do comunista Luiz Carlos Prestes. A Coluna Prestes, composta de mil e quinhentos homens, em dois anos e meio percorreu cerca de 25 mil quilômetros, através de treze estados, e tinha como principal bandeira “acabar com a miséria e a injustiça social no Brasil”, discurso ainda em voga pelos comunistas que, em 2022, tomaram o poder com a ajuda dos supremos órgãos judicantes da nossa combalida República e a especial conivência da mídia tradicional.

 

Como já informado, a primeira publicação do poema ocorreu em julho de 1928, e em 1930 integrou Alguma Poesia. Nesse período a República era presidida por Washington Luís, eleito com 99,7% dos votos válidos, de acordo com os números oficiais. A poucos dias do término do mandato,  em 24 de outubro de 1930, foi deposto pela Revolução Liberal (liderada por Getúlio Vargas, candidato derrotado nas eleições daquele ano), preso e exilado por dezessete anos.

 

Um dos atos de Washington Luís, que o fez perder popularidade e deu origem a novos focos de insatisfações políticas além de recuar da promessa transmitida por mensagem presidencial quanto à libertação dos presos políticos e à concessão de anistia aos participantes dos levantes nos anos anteriores (1922 a 1925) —, foi o endurecimento da Lei de Imprensa e a edição da "Lei Celerada", por meio do Decreto nº 5.221, de 12/08/1927, que impôs limites à atuação da oposição (de esquerda) e restringiu direitos de manifestação, além de novamente jogar na ilegalidade o partido comunista brasileiro (PCB), cuja legalidade havia sido reconhecida no dia 1º de janeiro daquele ano[5].

 

Todo este movimento político ocorrido na década de 1920 não foi interrompido com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. Longe disso. No início da década de 1930, integrantes dos levantes tenentistas que deram suporte à ascensão do getulismo ao poder, insatisfeitos com a aproximação entre o governo e os grupos oligárquicos que haviam sido afastados com a queda de Washington Luís, uniram-se a comunistas, socialistas anarquistas, operários e “intelectuais” de esquerda, com o apoio do clandestino partido comunista brasileiro, para formarem pequenas frentes oposicionistas, com a narrativa de que deveriam combater o fascismo (vejam só!).

 

Nessa época, Luiz Carlos Prestes, pela formação militar, era um nacionalista sem uma base teórica consistente. Iniciou estudos marxistas durante o ano de 1929, na Bolívia, para onde se transferiu no final de 1928, após o fracasso da Coluna Prestes. Depois, transferiu-se para a Argentina, onde exerceu atividades como engenheiro e aprofundou os estudos no marxismo. O líder comunista tinha consciência da necessidade de se aprofundar nas teorias marxistas, tanto que, ao ser cogitado como candidato nas eleições presidenciais de 1930, recusou o convite, diluindo assim a pretensa aliança com o partido comunista brasileiro, tendo como consequência imediata a desfiliação partidária de muitos comunistas, que decidiram aderir ao “prestismo”, ou seja, à liderança de Prestes. Curioso observar que, no mês de maio daquele ano, Prestes divulgou manifesto de adesão ao comunismo para, no ano seguinte, mudar-se para a União Soviética a fim de se dedicar aos estudos marxistas-leninistas, somente se filiando ao partido comunista em agosto de 1934, quatro meses antes de voltar clandestinamente ao Brasil.

 

No período em que Prestes estava fora do país, aqueles grupos oposicionistas formados nos primeiros anos da década de 1930 mantiveram o discurso antifascismo contra o governo de Getúlio e, encorpados, deram origem à Aliança Nacional Libertadora (ANL), criada durante o segundo semestre de 1934 e manifestada publicamente em janeiro de 1935, tendo como pontos principais em seu programa: a nacionalização de empresas estrangeiras, a reforma agrária e a constituição de um governo popular, ou seja, comunista. Embora também constasse do programa a garantia de amplas liberdades democráticas, sabemos o que isto significa em programas de organizações socialistas, que atuam com sua principal arma teórica: o marxismo.

 

Estava, assim, desenhado o panorama político para a derrubada do governo, que foi tentada pelo movimento tenentista deflagrado nos dias 23 a 27 de novembro de 1935, por meio de levantes militares ocorridos em Natal, Recife e Rio de Janeiro, em nome da Aliança Nacional Libertadora e sob a liderança de Luiz Carlos Prestes, capitão do exército.

 

O movimento fracassou por alguns motivos, dentre os quais a falta de apoio popular e a avaliação superestimada de Prestes quanto ao seu prestígio no exército. O movimento, facilmente reprimido e derrotado pelas forças legalistas, foi totalmente desmoralizado, sendo conhecido nas fileiras militares como a “intentona” (louco intento) comunista.

 

A pergunta que se faz, a partir da leitura do poema de Drummond, é se a pedra, no caso, se refere a todo este movimento comunista revolucionário que está sempre a criar obstáculo ao desenvolvimento dos valores defendidos pelos conservadores e liberais, ou se a pedra é metáfora para os valores e movimentos contrários aos intentos revolucionários dos vassalos ideológicos de Lênin.

 

Iniciei este artigo de opinião dizendo que via nos versos drummondianos uma profecia a se cumprir. No caso, a profecia se refere à existência da pedra, que sempre estará lá, seja qual for a sua representação. A tradução da linguagem metafórica do poema para compreensão da realidade dependerá do leitor.

 

No meu caso, penso que a indicação do comunista Flavio Dino para a vaga de ministro do supremo tribunal federal, neste 27 de novembro, não é acaso ou mera coincidência, mas uma data especialmente escolhida pelo ocupante da cadeira presidencial, como marco da retomada da “intentona” de 1935. O ex-presidiário elevado à condição de presidente da república aposta alto na comunização do Brasil e está disposto a pagar o preço.

 

Em 1935 pararam o capitão comunista. Como já observado, Prestes não apenas superestimou o seu prestígio junto às forças armadas como subestimou o poder de reação das forças leais ao governo, que rapidamente impôs a rendição dos revoltosos da Escola de Aviação Militar que iniciaram um levante às três horas da manhã do dia 27 de novembro, controlado em poucas horas, no amanhecer do mesmo dia, ante a rápida intervenção das tropas legalistas provenientes da Vila Militar.

 

Desta vez, o Capitão patriota foi parado pelos supremos tupiniquins, que sequer tentaram disfarçar seu ativismo e sua índole autoritária, cujas ações, muitas contrárias à lei e à Constituição, contaram com a inestimável ajuda dos órgãos de imprensa tradicional, reunidos em consórcio, e o respaldo do generalato, o que não deixa também de revelar a existência de uma avaliação superestimada feita pelo Presidente Jair Messias Bolsonaro a respeito de seu prestígio junto às forças armadas, e uma avaliação subestimada quanto ao caráter (ou sua ausência) dos seus inimigos políticos e de aliados de ocasião.

 

Resta agora saber, nos caminhos tortuosos da política brasileira, quem tropeçará na pedra de quem para cumprimento da profecia drummondiana: a existência da pedra é perene e, em última análise, nos governa.

 

giuseppe caonetto

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[1] Drummond e o Partido Comunista, disponível em: https://blogdoims.com.br/drummond-e-o-partido-comunista-por-marcelo-bortoloti/

[2] Drummond e o Partido Comunista, op. cit.

[3] Uma pedra no meio do caminho / ou apenas um rastro, não importa. ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia Completa. São Paulo: Nova Aguilar, 2002.

[4] TOMÁS DE AQUINO. Os demônios - Sobre o mal | Questão 16. Campinas: Ecclesiae, 2022.

[5]  1ª República (15.11.1889 - 16.07.1934). Portal da Câmara dos Deputados. Acessível em:

https://www2.camara.leg.br/a-camara/conheca/historia/Ex_presidentesCD_Republica/republica1.html


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