Mateus 24,37-44
Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos: 37“A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. 38Pois nos dias, antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. 39E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos. Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem. 40Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. 41Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada. 42Portanto, ficai atentos, porque não sabeis em que dia virá o Senhor. 43Compreendei bem isto: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, certamente vigiaria e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. 44Por isso, também vós ficai preparados! Porque, na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá”.
Estamos diante de um dos mais intrigantes discursos de Jesus aos seus seguidores. Não é preciso dizer que os apóstolos não entenderam muito bem o que lhes foi dito. Menos ainda os demais discípulos. E depois de dois mil anos ainda buscamos a compreensão dessas palavras.
Afinal, qual a razão para Jesus, aqui autoproclamado Filho do Homem, comparar-se a um dilúvio e a um ladrão?
Sabemos que Jesus não é um dilúvio. Ele mesmo se apresenta, em dado momento, como a fonte de água viva (Jo, 4,10). Ora, há claramente um conflito entre esse Jesus que dá de si mesmo como água cristalina, que mata a nossa sede, com este Jesus, Filho do Homem, que se apresenta como dilúvio, que a todos arrasta.
Não podemos nos esquecer que os próprios evangelistas narram certos conflitos naqueles que se aproximam de Jesus ou dele ouviram falar, quando perguntados sobre sua pessoa. Exemplo disso é o que disseram seus discípulos ao serem por Jesus questionados a respeito do que dizem os habitantes de Cesareia de Filipe a seu respeito. «Uns dizem que é João Batista; outros, Elias; outros, Jeremias ou um dos profetas» (Mt 16,13-14), responderam, revelando o tamanho da confusão sobre quem é Jesus, o Filho do Homem.
Aqui há um conflito ainda mais relevante: pelas respostas, há clara evidência de que o povo de Cesareia de Filipe acredita na doutrina reencarnacionista, ao passo que Jesus, ao se apresentar como o Filho do Homem, revela-se como o Filho do Deus que se encarna. O conflito, neste caso, é desfeito pela pronta resposta de Pedro: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!» (Mt 16,16). Ou seja, o Filho do Deus que se encarna, do Deus que se faz Homem, do Deus que se revela para o Homem como a fonte de sua vida.
Voltando ao tema, é preciso nos indagar sobre a possibilidade desta água viva, que é Jesus, transmutar-se em dilúvio, que tudo arrasta. São imagens conflitantes de um Deus que se apresenta em Jesus em momentos distintos, e que precisam, em nosso espírito, conciliarem-se. É, de fato, de difícil compreensão como pode, um Deus apaixonado, revelar-se em Jesus como uma tormenta, aniquiladora, devastadora, capaz de extirpar sua própria criação. Contudo, entendamos que este Deus, que é puro Amor, permitiu o sacrifício de seu próprio Filho, como sinal concreto de amor a quem assume, nesta vida, ser também fonte de água viva.
Partindo desta constatação, é possível observar que, na verdade, o dilúvio a que se refere Jesus não chega com a vinda do Filho do Homem. Ele já existe, e está em cada um de nós. Todos temos nossos dilúvios. E eles existem em nós por estarmos, mesmo com sede, bebendo de fontes que não nos sacia.
Quanto à comparação com o ladrão, sabemos que Jesus não rouba nem o nosso coração. Ele sempre espera de nós a gratuidade, e portas abertas.
Como, então, compreender que se deva estar vigilante para algo que é bom, que é desejável? Não deveríamos estar com as portas e janelas de nosso coração escancaradas, esperando por este momento, do encontro definitivo com o coração de Jesus?
Mas Jesus faz uma advertência e nos quer vigilantes, como o dono da casa que espera pelo ladrão, se dele soubesse. A advertência, melhor analisando, refere-se a tudo o que pode roubar de nós este momento: o encontro com Deus, o Deus apaixonado, o Deus que é fonte de água viva, o Deus que nos oferece cotidianamente seu coração como morada.
Há quem, diante do texto deste primeiro domingo do Advento, busque cercar-se de proteção, de armaduras, de todo tipo de resistência ao dilúvio, e ao ladrão.
Longe de pretender ensinar, eu quero apenas aprender a abrir as portas e janelas do meu coração para Aquele que jorra, que transborda e inunda com seu amor quem a Ele oferece a sua sede.
giuseppe caonetto