Poesia militante: a desconexia

  30/11/2023

Compartilhe:              


Percorrendo a velha mídia, deparei-me com artigo publicado pela Veja no dia 26 de novembro de 2023 e assinado por Valmir Moratelli em que o jornalista aborda os pontos positivos e negativos da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada de 22 a 26 deste mês na histórica cidade fluminense.

 

Detive-me em três pontos.

 

No primeiro, o autor da matéria considera positiva a presença, em alta nas casas culturais, tanto na programação oficial quanto na paralela, da “poesia militante”, e cita as batalhas de slam como exemplo. Em outro artigo publicado dois dias antes no site da mesma revista, o mesmo jornalista destaca o aumento da quantidade de poetas na festa literária, de forma quase celebrativa (“A poesia nunca esteve tão em alta”, afirmou), e aponta como causa desse “boom” da poesia a militância engajada dos autores, e advoga em favor do espaço para a “poesia política”, afirmando ser cabível “num mundo de turbulências como o atual, em que crises econômicas, políticas, climáticas e sociais se tornam assunto, não só de mesa de bar, como também da busca por saídas e soluções práticas para as angústias cotidianas”.

 

Os outros dois pontos foram apontados como negativos. Inicialmente, o jornalista demonstra seu incômodo com o esvaziamento dos debates realizados ao longo da programação e recomenda uma análise dos motivos, sugerindo que os organizadores façam uma revisão sobre “o que tem atraído e afastado o público”. No artigo são citados, como exemplo, os debates realizados nos dias 23 e 24 (quinta e sexta-feira), o primeiro com abordagens sobre “os impactos dos clássicos na produção contemporânea”, entre o cubano Marcial Gala e a paulista Luiza Romão; e o segundo sobre “a força do feminismo e a questão do pertencimento na poesia contemporânea”, entre Dionne Brand, de Trinidad e Tobago, e a gaúcha Angélica Freitas.

 

Na sequência, Moratelli destaca a diminuta participação de autores idosos no evento, motivada pela opção dos organizadores em priorizar a nova geração que, no cenário literário, ainda tem pouca badalação, e novamente recomenda que a questão seja discutida “no momento que a Flip se abre cada vez mais para grupos antes invisibilizados, como de negros, indígenas e mulheres”.

 

Não é preciso ser muito inteligente para perceber os motivos pelos quais a edição 2023 da Flip foi um fracasso de público nos eventos que, em tese, seriam os mais relevantes da festa literária, quais sejam, aqueles realizados com a presença de convidados internacionais. Um cérebro com dois neurônios bastam para detectar a evidente relação entre os pontos negativos levantados na matéria da Veja com aquele que o jornalista aponta como positivo.

 

Ora, celebrar o “boom” da poesia pelo aumento de personagens militantes – aí considerados os convidados para os debates, a exemplo das brasileiras Tatiana Pequeno, Luiza Romão e Angélica Freitas, e dos internacionais Marcial Gala e Dionne Brand, já mencionados, e Laura Wittner, da Argentina – e esperar que o público demonstre interesse pelos impactos das obras clássicas na produção contemporânea é querer demais. Sequer temas retirados da cartilha militante, a exemplo do feminismo, tem força de atrair público, por uma simples razão: as narrativas apresentadas pelos autores ditos engajados, em especial as autoras mencionadas, se chocam com a dura realidade: o público de esquerda, cuja ideologia não apenas predomina mas é dominante na festa literária de Paraty, não conhece os clássicos e pouco se interessa pelo discurso maçante e repetitivo, sem novidades, dos autores políticos.

 

O que afirmo pode ser facilmente observado pela leitura, mesmo superficial, das matérias veiculadas pelas mídias tradicionais, que não conseguiram esconder o fracasso, mesmo com todo o empenho de fazer parecer irrelevantes os pontos negativos.

 

Por exemplo, em matéria de 270 palavras veiculada em O Globo, de 27 de novembro, foi dito que “mediadores não conseguiram guiar autores para uma conversa compreensível e de interesse do público mais amplo”. Ainda que o referido jornal não goze da credibilidade de outrora, há que se prestigiar a informação, vez que assinada por cinco jornalistas, integrantes da equipe destacada para cobertura do evento.

 

Neste ponto, imperativas e necessárias as seguintes perguntas: Os mediadores, fruto da cartilha militante, não estavam à autora dos autores? Ou o público, de viés ideológico, mostrou-se de fato desinteressado, seja pela falta de capacidade de compreensão, em razão de sua má formação escolar, ou pela abordagem repetitiva das narrativas? Com o leitor, as respostas.

 

Para não deixar de registrar, no final da matéria veiculada no panfleto O Globo os autores confirmam que “o Auditório da Matriz estava mais vazio do que de costume”.

 

A questão central é: qual o espaço que a Flip daria a autores como Flavio Gordon? Estaria entre os seus convidados? Afinal, num “mundo de turbulências”, como apontou Moratelli, provocadas por “crises econômicas, políticas, climáticas e sociais”, não estaria Gordon apto a debater a “busca por saídas e soluções práticas para as angústias cotidianas”?

 

Certamente Gordon, jornalista, tradutor e escritor, carioca nascido em 1979, doutor em antropologia social e autor de diversas obras, sequer seria cogitado para participar da Flip ou de qualquer outro evento literário similar, pelo simples fato de ser conservador e crítico do socialismo e do globalismo.

 

Portanto, por mais que os órgãos da mídia tradicional, por não conseguirem mais esconder os fatos, já começam a levantar questões acerca do esvaziamento dos eventos programados (bem provável que em razão do prejuízo financeiro, haja vista que o evento conta com inúmeros patrocínios), não consigo vislumbrar, ante os acontecimentos atuais na esfera do poder da república, crescimento qualitativo das atuais festas literárias, seja de Paraty ou de qualquer outra cidade. Elas foram pensadas para isso mesmo: ser ponto de encontro da militância e seus asseclas, ainda que estes estejam interessados mais no lazer que há no entorno que propriamente na diminuta cultura prevista na programação.

 

giuseppe caonetto


Leia mais:

Poemas Crônicas Micronarrativas Contos Opinião Publicações

Newsletter

Inscreva-se para receber as novidades.

(Os dados serão utilizados apenas para envio de conteúdos publicados neste site , nos termos da Lei nº 13.709/2018 (LGPD) e a inscrição poderá ser cancelada a qualquer momento.)

Este site utiliza cookies próprios e de terceiros para analisar sua navegação e oferecer um serviço mais personalizado e publicidade conforme seus interesses.   Termos de Uso/Cookies | Política de Privacidade