A cultura do gerundismo

  18/07/2025

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É inegável que a língua portuguesa é uma das mais ricas do mundo e fascina tanto os falantes nativos, principalmente os lusitanos, quanto aqueles que se interessam pelo idioma, dada a sua versatilidade e expressividade.

 

Atualmente o português se posiciona entre as dez línguas mais faladas no mundo, com quase 300 milhões de falantes nativos, sendo o idioma oficial em nove países: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial e Timor-Leste, além do território de Macau.

 

Um dos aspectos mais importantes a serem observados na evolução da língua portuguesa, além de ser o berço de uma grandiosa literatura e uma vivacidade musical contagiante, é a sua generosa receptividade de expressões utilizadas em outras línguas, o que promove inclusão cultural e a torna ainda mais rica.

 

Contudo, nem sempre a evolução da língua é sinônimo de enriquecimento verbal, semântico ou fonético. Há vícios linguísticos que representam empobrecimento da comunicação, resultando em imprecisão, redundância, incompreensão, ambiguidade, previsibilidade, artificialidade e falta de clareza, dentre outras consequências.

 

O pleonasmo vicioso (uso de palavras redundantes), a tautologia (repetição de uma mesma ideia com palavras ou expressões sinônimas) e a cacofonia (junção de sons de palavras vizinhas) são exemplos de vícios linguísticos comuns que afetam a precisão e a elegância da comunicação. Alguns fenômenos linguísticos, no entanto, podem ser utilizados como recurso estilístico, o que não acontece em outras situações, a exemplo do uso inadequado, excessivo e desnecessário do gerúndio (forma verbal terminada em -ndo) nas construções verbais.

 

O gerundismo é fenômeno linguístico comum e frequente na comunicação, inclusive em contextos formais como telemarketing, atendimento a clientes, discursos corporativos, dentre outras situações nas quais o uso de múltiplos verbos para ações futuras pode gerar alongamento frasal desnecessário. Essa construção compromete a comunicação e transmite uma sensação de adiamento, além de incerteza. Uma das explicações que aponta os serviços de atendimento como campo fértil para o surgimento do gerundismo está nas orientações corporativas repassadas aos atendentes quanto ao uso de expressões mais suaves e menos diretas, a fim de evitar que sua fala pareça rude ou brusca e, assim, afaste o cliente por ausência de deferência ou gentileza. Mas pode ser que as pessoas, por si, optaram por essa forma de se expressar por uma questão pragmática, ou seja, para suavizar o peso de uma negação ou da afirmação, a depender do contexto em que a mensagem foi transmitida. Por exemplo, a negação fica mais leve se, em vez de dizer “não participarei” ou “não poderei participar”, disser “não vou poder estar participando”. No caso de mensagem afirmativa, usar a expressão “vou poder estar atendendo na próxima semana” em vez de “posso atender na próxima semana” ameniza o compromisso que esta última denota.

 

Não se pode ignorar a utilidade do gerúndio, forma verbal regular, na comunicação, a exemplo da frase “estou lendo um livro”, que revela a ação de leitura em andamento. O uso do gerúndio também é correto quando indica uma ação simultânea a outra, como na frase “estou estudando enquanto ouço música”. Porém, o uso do gerúndio torna-se vício de linguagem se empregado em expressões com objetivo de indicar uma ação futura, culminando na transformação de frases simples em redundantes, especialmente pelo uso de perífrases, o que torna a comunicação menos direta em razão da prolixidade.

 

Embora o gerundismo não seja erro gramatical, a crítica à sua utilização na comunicação é pertinente, pois o uso de verbos desnecessários prejudica a clareza e a concisão, diluindo o impacto da mensagem. O gerundismo típico se estrutura por meio de uma locução verbal construída com três verbos que, quase sempre, envolve os verbos “ir” e “estar”, acrescido do gerúndio do verbo que expressa a ideia principal. Mas o uso do verbo “poder” também é comum no gerundismo. Exemplos: “vamos estar enviando o documento”; “vou estar transferindo sua ligação, a senhora vai estar aguardando na linha?”; “ele vai estar realizando o pagamento amanhã”; “podemos estar agendando para quinta-feira”. Mas é possível que o verbo no gerúndio não expresse a ideia principal, mas seja apenas um auxiliar, o que exige o acréscimo de mais um verbo, este no infinitivo. Assim, a frase “vamos estar enviando o documento” poderia ser “vamos estar tentando enviar o documento”, o que agrava ainda mais a comunicação e gera uma sensação de imprecisão linguística, além de prejudicar a oratória de quem, ao se comunicar, emprega expressões identificadas como gerundismo.

 

Vale ressaltar, embora este artigo não se destine à identificação das causas, que alguns estudos apontam a influência da língua inglesa para o alastramento do gerundismo na língua portuguesa, em especial pela literalidade de algumas traduções, a exemplo da expressão “I am going to be doing” que, ao pé da letra, se traduz por “vou estar fazendo”, com três verbos. Na minha percepção, o problema vai além dessa possível influência, se existente. Penso que nenhum tradutor, se qualificado para o trabalho, verteria a expressão inglesa para “vou estar indo fazer”, com quatro verbos, tão comum de se ouvir em vídeos publicados nas redes sociais. A influência do inglês, comum em contextos de atendimento bilíngue, explica em parte o gerundismo, embora traduções literais não justifiquem construções mais complexas, com múltiplos verbos, o que me levou a escrever sobre o tema.

 

O fato motivador ocorreu durante uma videoaula, em que o professor, de curso universitário, disse a pérola: “depois da faculdade, vocês vão poder estar indo fazer mestrado”, uma expressão composta por cinco verbos, quando bastaria dizer que “depois da faculdade, vocês poderão fazer [o curso de] mestrado”. Os verbos adicionais (“vão”, “estar” e “indo”) reforçam a redundância e sugerem hesitação, comprometendo a credibilidade do discurso. Uma construção com tantos verbos, na forma observada, pode gerar incerteza e falta de compromisso com a ação, capazes de confundir o ouvinte.

 

Apesar de ser um dos vícios de linguagem mais combatidos, com inúmeros artigos e vídeos na Internet abordando o assunto, há algum tempo tenho notado (ou venho notando, para exemplificar um correto uso do gerúndio) um crescimento no número de ocorrências desse desvio linguístico, com alastramento para diversas áreas, inclusive de influenciadores digitais, o que me leva a concluir que a língua portuguesa sofre um processo impactante que torna a comunicação menos fluida. Se considerarmos que há tantos outros vícios, é possível inferir que a sociedade brasileira tem decrescido no quesito da expressão verbal.

 

Há claro reflexo desse empobrecimento linguístico nos dados referentes aos hábitos de leitura. De acordo com a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, divulgada em novembro de 2024 e realizada pelo Instituto Pró-Livro, 53% dos brasileiros não leem livros, sendo a primeira vez que a maioria da população se declara não-leitores, superando o percentual levantado nas pesquisas anteriores (2007, 2011, 2015 e 2019). Os dados também revelam queda na média anual de livros lidos, com 3,96 livros por pessoa, o menor índice da série histórica.

 

A pesquisa corrobora a percepção de que o crescimento dos vícios de linguagem na comunicação se deve, principalmente, pela falta de leitura. Sabemos que estudar a norma culta e conhecer as regras gramaticais ajudam a corrigir erros e, assim, evitar vícios de linguagem, tornando a comunicação mais clara, eficaz e elegante, tanto na fala quanto na escrita. Não podemos negar que a exposição à língua padrão ajuda na fixação do uso correto de palavras e das construções linguísticas. No entanto, acreditamos que o melhor caminho para sanar as deficiências apontadas acima é utilizar a língua de forma inteligente e criativa, o que exige não apenas exercícios de escrita e reescrita, leituras dirigidas, cursos de oratória ou oficinas de redação elaboradas para o uso correto da língua, mas também a oferta de cursos de escrita criativa nas escolas e treinamentos corporativos focados em comunicação direta, voltados à valorização do idioma e na conformação cultural com a linguagem padrão, formal ou literária.

 

Por outro lado, não se pode ignorar que a língua portuguesa, a exemplo de outras e por sua riqueza semântica, é propícia às adaptações e incorporações de novos termos e expressões, o que lhe confere vivacidade e um estado de constante mudança. Neste ponto, vale destacar a sua adaptabilidade, no contexto digital, a novas formas de expressão e palavras que surgem cotidianamente, advindas da acerelada evolução tecnológica, da alta conectividade mundial e da comunicação digital a promover a aproximação cultural e linguística dos diversos povos.

 

Há recentes estudos que, em determinadas circunstâncias e em conformidade contextual, apontam adequação e conveniência do uso estratégico do gerundismo visando, por exemplo, a veiculação de uma imagem cordial num ambiente de negociação comercial. Com isso, os autores buscam combater suposto preconceito linguístico de quem vê no gerundismo um vício a ser evitado. É o caso de COMPATO JUNIOR (2022) que, em artigo publicado na Revista VIDA, da Universidade Brasil, afirma não ser “exatamente o que se pode chamar de ‘erro’ e, dependendo das circunstâncias de uso, talvez mesmo nem um vício linguístico”[1]. Seus argumentos estão na direção de que não há desrespeito, na construção, da regra canônica da sintaxe, e que cumpre sua funcionalidade no sentido de expressar uma ação em progresso com mais polidez, apenas mais demorada do que o enunciado dito de forma direta, sem uso de gerúndio.

 

No entanto, a análise do citado autor se limita à construção do gerundismo clássico (“ir” e “estar” + gerúndio) e, conforme demonstrado neste artigo opinativo, há casos em que a expressão é construída com cinco verbos, configurando, a meu ver, uso inadequado do gerúndio, vício de linguagem que requer ações concretas, como oficinas de escrita criativa, grupos de leitura, cursos e treinamentos visando uma comunicação mais clara e a preservação das riquezas da língua portuguesa.

 

Giuseppe Caonetto

 

[1] CAMPATO JÚNIOR, J. A. Língua e Ensino de Língua: Entre o Senso Comum e a Ciência. Revista VIDA: Ciências Humanas (VICH), São Paulo, SP, v. 1, n. 1, p. 21–29, 2022. DOI: 10.63021/issn.2965-8853.v1n1a2022.11.

Disponível em: https://periodicos.universidadebrasil.edu.br/index.php/vich/article/view/11. Acesso em: 17 jul. 2025.


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